Astigmatismo e catarata: dá para corrigir os dois na mesma cirurgia? Entenda a lente tórica

Cirurgia de catarata corrige astigmatismo? Entenda a lente tórica, quem é candidato, biometria/topografia e a diferença de resultado. Por Dr. Pedro Augusto, oftalmologista em São Paulo.

Olho humano com feixes de luz alongados — ilustração do astigmatismo e correção com lente tórica

Muitos pacientes só descobrem (ou redescobrem) o astigmatismo na avaliação pré-operatória da catarata. Aí vem a busca imediata: “cirurgia de catarata corrige astigmatismo?”, “lente tórica catarata” e até “astigmatismo tem cura”.

A resposta útil é: na mesma cirurgia de catarata, é possível corrigir boa parte do astigmatismo corneal com uma lente intraocular tórica — desde que o planejamento com biometria e topografia seja bem feito. Não é mágica automática de toda facectomia; é escolha técnica.

O que é astigmatismo, no contexto da catarata

No astigmatismo, a curvatura da córnea (e/ou do cristalino) não é simétrica como uma bola de futebol — lembra mais uma bola de rugby. A luz foca em mais de um meridiano, e a imagem fica esticada ou borrada em todas as distâncias.

Sintomas comuns:

  • Visão distorcida ou “fantasma”
  • Dificuldade para enxergar detalhes finos mesmo com esforço
  • Cansaço visual
  • Em alguns casos, piora de ofuscamento

Quando a catarata entra em cena, os sintomas se somam: véu da catarata + desfoque do astigmatismo. Operar a catarata com lente esférica comum (não tórica) remove o véu, mas pode deixar o astigmatismo corneal relevante — e o paciente continua dependente de óculos para longe com cilindro.

Dá para corrigir os dois na mesma cirurgia?

Sim, em candidatos selecionados, usando:

  1. Lente intraocular tórica — a opção mais direta e previsível para astigmatismo corneal significativo
  2. Em casos específicos, incisões relaxantes ou laser femtosegundo associado — estratégias complementares ou alternativas conforme o grau e a tecnologia disponível
  3. Planejamento refrativo completo (alvo de mirópia residual, etc.)

A lente tórica tem poderes diferentes nos meridianos: ela é alinhada em um eixo específico dentro do olho. Se o eixo ficar errado, o benefício cai — por isso marcação, cálculo e estabilidade da lente importam tanto quanto o modelo escolhido.

O que é a lente tórica

É uma lente intraocular com correção de cilindro embutida. Pode ser:

  • Monofocal tórica — nitidez no foco principal (em geral longe) + correção de astigmatismo
  • EDOF tórica ou multifocal tórica — combina correção de astigmatismo com profundidade de foco / multifocalidade, em olhos muito bem selecionados

Para o panorama geral das famílias de lente, veja monofocal, multifocal, tórica e EDOF.

Quem é candidato

Em geral, candidatos a tórica têm:

  • Astigmatismo corneal regular clinicamente relevante no planejamento
  • Topografia/ceratometria confiáveis
  • Expectativa de reduzir óculos para longe (ou otimizar o alvo refrativo)
  • Olho sem irregularidades extremas que inviabilizem o cálculo (ceratocone avançado, cicatrizes irregulares importantes — casos em que a indicação muda)

Não é só “ter cilindro na receita antiga”. A receita de óculos mistura fontes de astigmatismo; o planejamento cirúrgico olha a córnea.

Por que biometria e topografia importam tanto

Três erros clássicos de expectativa vêm de exame incompleto:

  1. Ignorar o astigmatismo corneal e implantar lente esférica → surpresa com óculos cilíndricos depois
  2. Usar só um exame sem cruzar dados → eixo ou magnitude imprecisos
  3. Não considerar a superfície ocular (olho seco intenso) → medidas instáveis

O pacote de planejamento costuma incluir:

  • Biometria óptica — comprimento axial, potência da córnea, profundidades
  • Ceratometria / topografia / tomografia — magnitude e eixo do astigmatismo corneal; regularidade
  • Avaliação de película lacrimal quando as medidas “saltam” entre exames
  • Cálculo da potência esférica e do cilindro da tórica, com fórmula adequada ao olho

Em olhos pós-cirurgia refrativa, o cálculo é mais desafiador e exige experiência — outro motivo para não tratar lente tórica como commodity.

Resultado: com tórica vs. sem correção do astigmatismo

SituaçãoO que o paciente costuma perceber
Catarata operada sem tratar astigmatismo corneal relevanteVisão mais limpa (saiu o véu), mas longe ainda “esticado”/borrado sem óculos
Catarata + lente tórica bem planejadaMaior chance de longe nítido com menos cilindro residual; menos dependência de óculos para distância
Tórica desalinhada / cálculo imprecisoBenefício parcial; pode precisar de óculos, ajuste ou, raramente, reposição

Nenhum cirurgião honesto promete “zero óculos absoluto” para todo mundo. O que se busca é reduzir de forma significativa o erro refrativo cilíndrico e melhorar a qualidade visual sem correção — ou com correção mais leve.

”Astigmatismo tem cura?”

Depende do que a pessoa chama de cura:

  • Cura no sentido de remédio que some com o astigmatismo: não
  • Correção duradoura do astigmatismo corneal no contexto da catarata: sim, com lente tórica (e estratégias associadas), com alta taxa de sucesso em casos bem indicados
  • Astigmatismo irregular (ex.: ceratocone): é outro capítulo — não se resolve como um astigmatismo regular simples com tórica convencional

Óculos e lentes de contato também “corrigem” sem curar. A cirurgia muda a óptica interna do olho; não é cosmética de córnea em todos os casos.

O eixo da lente: detalhe que o paciente não vê, mas sente

Durante a cirurgia, a tórica é rotacionada até o eixo planejado. Depois, ela precisa permanecer estável. Pequenas rotações reduzem o efeito cilíndrico de forma desproporcional — por isso modelos com boa estabilidade rotacional e técnica cuidadosa são parte da conversa profissional, não detalhe de brochure.

No pós-operatório, o acompanhamento confere posição da lente, inflamação e refração residual. O roteiro geral de colírios e restrições é o mesmo da recuperação da catarata; o diferencial está no alvo refrativo.