Glaucoma: sintomas, tipos, exames e tratamento (guia completo)

Guia médico completo sobre glaucoma: tipos (ângulo aberto, fechado, congênito), sintomas silenciosos, exames de diagnóstico (tonometria, OCT, campimetria) e tratamentos — colírios, laser e cirurgias (MIGS, trabeculectomia). Por Dr. Pedro Augusto, oftalmologista em São Paulo.

Olho humano em close-up mostrando íris e pupila — exame oftalmológico para detecção de glaucoma

O glaucoma é chamado de “ladrão silencioso da visão” — e o nome tem motivo. A doença lesa o nervo óptico de forma progressiva e, na grande maioria dos casos, não dá sintoma nenhum até que parte importante do campo visual já tenha sido perdida. Quando o paciente percebe que enxerga menos, a lesão é, em regra, irreversível.

A boa notícia: glaucoma diagnosticado cedo é uma das condições oftalmológicas mais controláveis hoje. Colírios eficazes, lasers ambulatoriais e cirurgias minimamente invasivas oferecem opções para cada estágio. O que define o desfecho é o tempo — e o tempo depende de você fazer exame oftalmológico de rotina.

Este guia explica em detalhe o que é glaucoma, quais são os tipos, como ele é diagnosticado e quais os tratamentos disponíveis em 2026, com base nas diretrizes da American Academy of Ophthalmology, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e da Sociedade Brasileira de Glaucoma.

O que é glaucoma?

Glaucoma é o nome de um grupo de doenças que têm em comum o dano progressivo ao nervo óptico — o “cabo” que leva a informação visual do olho até o cérebro. Esse dano se traduz em perda do campo visual: o paciente começa a perder a visão periférica e, em estágios avançados, fica com uma visão em “túnel”.

O principal fator de risco modificável é a pressão intraocular (PIO) elevada. Por muito tempo o glaucoma foi descrito apenas como “pressão alta no olho”, mas a definição moderna é mais precisa: o glaucoma é uma neuropatia óptica. Existem pacientes com PIO normal que desenvolvem glaucoma e pacientes com PIO alta que nunca evoluem — por isso o diagnóstico exige avaliação completa, não só medir a pressão.

A PIO é mantida pelo equilíbrio entre a produção e a drenagem do humor aquoso, líquido transparente que circula na câmara anterior do olho. Quando a drenagem fica comprometida — o motivo varia entre os tipos de glaucoma —, a pressão sobe e, ao longo do tempo, comprime as fibras do nervo óptico.

Quais são os tipos de glaucoma

Existem várias formas de glaucoma. Os principais são:

Glaucoma primário de ângulo aberto

Responsável por aproximadamente 90% dos casos em populações ocidentais. É lento, indolor e silencioso. O ângulo da câmara anterior (onde fica a malha trabecular, estrutura por onde o humor aquoso drena) está anatomicamente aberto, mas funciona mal. A PIO sobe gradualmente ao longo de anos.

Glaucoma de ângulo fechado

Ocorre quando a íris bloqueia a malha trabecular, impedindo a drenagem do humor aquoso. Pode ser crônico (subagudo, com episódios intermitentes) ou agudo. A forma aguda é uma emergência médica: a PIO sobe rapidamente para níveis muito altos, e o paciente sente dor ocular intensa, vê halos coloridos ao redor das luzes, tem náusea, vômito e vermelhidão ocular.

Glaucoma de pressão normal

Forma na qual o dano ao nervo óptico ocorre mesmo com PIO dentro da faixa estatística “normal” (até 21 mmHg). Está associado a alterações vasculares e ao perfil anatômico da papila óptica. Exige a mesma atenção dos outros tipos.

Glaucoma congênito e juvenil

Aparece em bebês ou crianças, em geral por má-formação do sistema de drenagem do olho. Sinais de alerta incluem olhos grandes demais, fotofobia, lacrimejamento sem motivo e córneas opacas. É raro, mas exige cirurgia precoce.

Glaucoma secundário

Acontece como consequência de outra condição ou exposição: uveíte, traumas oculares, uso prolongado de corticoide (em colírios, pomadas, comprimidos ou inalantes), diabetes avançado, oclusões vasculares da retina e cirurgias oculares complicadas.

Causas e fatores de risco

Embora qualquer pessoa possa desenvolver glaucoma, alguns grupos têm risco substancialmente maior:

  • Idade acima de 40 anos: a prevalência cresce com a idade e praticamente dobra a cada década depois dos 60.
  • Histórico familiar: ter um parente de primeiro grau com glaucoma aumenta o risco entre quatro e dez vezes.
  • Ascendência africana: glaucoma primário de ângulo aberto é mais comum, tende a aparecer mais cedo e progredir mais rápido.
  • Miopia alta (acima de -6,00 dioptrias): associada a maior risco de glaucoma primário de ângulo aberto.
  • Hipermetropia alta e olhos pequenos: aumentam o risco de glaucoma de ângulo fechado.
  • Diabetes e hipertensão arterial mal controlados.
  • Uso prolongado de corticoide, seja colírio, pomada, inalatório ou via oral.
  • Trauma ocular prévio, mesmo que tenha acontecido anos antes.
  • Pressão intraocular elevada identificada em consulta de rotina.

Sintomas de glaucoma: por que ele é silencioso

Na grande maioria dos casos — o glaucoma primário de ângulo aberto — não há sintomas no início. A pressão sobe lentamente e o nervo óptico vai sendo lesado por anos antes que o paciente note qualquer mudança na visão.

Quando a perda de campo visual começa a ficar perceptível, em geral o paciente:

  • Esbarra em objetos ou pessoas que estavam em seu campo lateral
  • Tem dificuldade para dirigir, especialmente em ambientes pouco iluminados
  • Percebe “vultos” ou áreas escurecidas na visão lateral
  • Sente que enxerga pior em ambientes escuros

Em estágios avançados a visão fica em “túnel” — o paciente enxerga apenas o que está bem à sua frente. A perda visual já instalada não é recuperável com tratamento; o objetivo do médico passa a ser parar a progressão e preservar o que sobrou.

Crise aguda de ângulo fechado: emergência médica

A forma aguda do glaucoma de ângulo fechado é diferente. Os sintomas são intensos e súbitos:

  • Dor ocular forte (geralmente em um olho só)
  • Visão embaçada com halos coloridos ao redor das luzes
  • Náusea e vômito
  • Vermelhidão ocular
  • Pupila semidilatada e fixa
  • Cefaleia

Exames que detectam glaucoma

Nenhum exame isolado fecha o diagnóstico de glaucoma. O oftalmologista combina vários, e é a leitura conjunta que define o quadro.

Tonometria

Mede a pressão intraocular. O método mais confiável é a tonometria de aplanação de Goldmann, feita no consultório com colírio anestésico. Versões portáteis (como o iCare) servem para triagem e curva diária da PIO.

Fundoscopia e avaliação do nervo óptico

O oftalmologista avalia diretamente o disco óptico procurando sinais de “escavação” — perda de tecido neural característica do glaucoma. Esse exame é tão importante quanto a tonometria; muitos diagnósticos começam aqui, com PIO normal.

Campimetria computadorizada

Mapeia o campo visual de cada olho e detecta os “buracos” característicos do glaucoma. É também o exame que acompanha a progressão da doença ao longo dos anos — é repetido em todas as consultas de acompanhamento.

OCT de nervo óptico e camada de fibras nervosas

Tomografia de coerência óptica de alta resolução que mede a espessura da camada de fibras nervosas da retina. Detecta perda neural antes da campimetria mostrar alteração — é um dos exames mais úteis para o diagnóstico precoce.

Gonioscopia

Avaliação do ângulo da câmara anterior com lente especial. Define se o ângulo é aberto ou fechado, mudando completamente o plano de tratamento.

Paquimetria

Mede a espessura central da córnea. Córneas mais finas são fator de risco adicional e influenciam a interpretação da medida da pressão intraocular.

Tratamentos para glaucoma em 2026

O objetivo do tratamento é sempre o mesmo: reduzir a pressão intraocular o suficiente para parar a progressão do dano ao nervo óptico. O caminho até esse objetivo varia conforme o tipo de glaucoma, o estágio e a resposta individual.

Colírios

São a primeira linha na maioria dos casos. Funcionam reduzindo a produção do humor aquoso ou aumentando sua drenagem. As principais classes:

  • Análogos de prostaglandina (latanoprosta, travoprosta, bimatoprosta, tafluprosta): uso noturno, redução de PIO de 25 a 35%, classe mais potente. Geralmente o primeiro colírio prescrito.
  • Beta-bloqueadores (timolol): uso pela manhã, redução de PIO de 20 a 25%. Cuidado em pacientes com asma, DPOC ou bradicardia.
  • Alfa-agonistas (brimonidina): podem causar alergia local com uso prolongado.
  • Inibidores tópicos da anidrase carbônica (dorzolamida, brinzolamida).
  • Associações fixas: combinam dois princípios ativos no mesmo frasco para reduzir o número de aplicações e melhorar a adesão.

A adesão ao tratamento é o maior desafio: a doença é silenciosa, então o paciente esquece de pingar. Estabelecer rotina, revisar a técnica de aplicação e simplificar o esquema ao máximo faz parte do cuidado contínuo.

Tratamento a laser

  • Trabeculoplastia seletiva (SLT): laser aplicado na malha trabecular para melhorar a drenagem. Indicada no glaucoma primário de ângulo aberto. O estudo LiGHT mostrou que o SLT pode ser usado como primeira linha, antes dos colírios, em casos selecionados.
  • Iridotomia a YAG: cria um pequeno orifício na íris para evitar bloqueio do ângulo. Indicada em pacientes com ângulo fechado ou suspeita de fechamento iminente.
  • Ciclofotocoagulação: aplicação de laser no corpo ciliar para reduzir a produção de humor aquoso. Reservada para glaucomas refratários ou para olhos com pouca visão remanescente.

Cirurgia de glaucoma

Indicada quando o tratamento clínico e o laser não conseguem controlar a pressão, ou quando o glaucoma é avançado e a velocidade de progressão exige queda rápida e marcada da PIO. As opções modernas:

  • MIGS (Minimally Invasive Glaucoma Surgery): família de cirurgias minimamente invasivas — incluem implantes microscópicos (iStent, Hydrus), goniotomias (Kahook Dual Blade) e procedimentos ab interno. Em geral são feitas em conjunto com a cirurgia de catarata, têm recuperação rápida e perfil de segurança alto. Indicadas em glaucoma leve a moderado.
  • Trabeculectomia: cirurgia “padrão-ouro” clássica. Cria uma nova via de drenagem do humor aquoso por baixo da pálpebra superior. Reduz a PIO de forma marcada, mas exige acompanhamento próximo no pós-operatório.
  • Implante de tubo de drenagem (Ahmed, Baerveldt): dispositivo que drena o humor aquoso para um reservatório posterior. Indicado em glaucomas refratários ou após trabeculectomia que falhou.

A escolha da técnica é individualizada — leva em conta o tipo de glaucoma, a pressão-alvo, a expectativa de vida visual do paciente, comorbidades e o estágio da doença.

American Academy of Ophthalmology — Preferred Practice Pattern: Primary Open-Angle Glaucoma